A estruturação de uma tour nacional possibilita ao artista a formação de público por uma forma mais direta, sem a necessidade obrigatória, por exemplo, de ter lançado um CD no mercado. Mas para realizar um projeto desse tipo, não basta apenas querer, o músico deve, à priori, elaborar um planejamento antecipado com todas as preocupações de uma viagem e da produção do evento em si.
Para o planejamento, o primeiro passo é mapear as rotas existentes e estratégicas para o artista e com isso, elaborar um plano de viabilização dessa circulação. Ainda que o músico conte com um financiamento para executar a tour, é imprescindível a articulação com parceiros locais, uma vez que existe a necessidade de minimizar os gastos, pois circular num país com dimensões continentais é muito caro e algumas vezes até inviável.
Fora do país
Em uma circulação internacional, o planejamento deve ser feito com antecedência e com mais atenção em relação às regras de entrada, como, por exemplo, os vistos e seguros nos países que irão receber a tour, porque dependendo do local, os custos podem dobrar, com o acréscimo de documentação. Além da articulação internacional, o músico deve colocar no seu backline tudo aquilo que ele possa levar de equipamentos importantes, pois em alguns países, como no caso da Inglaterra, os espaços disponíveis para shows são desprovidos desses material.
O desafio na carreira internacional é conquistar o público. Considerando que poderá existir uma barreira linguística, mas, fácil de ser superada pela própria música, detentora de um poder de comunicação que vai além da tradução textual. Paciência e motivação também são habilidades requisitadas para fazer shows internacionais, que podem estar esvaziados de público, dependendo do festival.
Para uma banda iniciante, um projeto de circulação vai além da formação do público e da divulgação de sua música. Ele possibilita a maturidade do artista no palco, pois o produtor local deve planejar o show em um espaço adequado à experiência da banda, fazendo desta forma um nivelamento de carreira. Como essa é uma experiência bastante interessante para todo músico, o Encontro Internacional da Feira da Música traz em sua programação a oficina Estruturando Tours Nacionais e Internacionais, que será ministrada por Raphael Evangelista. Ele é violoncelista do duo Finlandia e organiza sua própria tour.
Para entender melhor como executar projetos desse teor, confira a entrevista, via e-mail, que Raphael Evangelista cedeu para nossa redação:
Na Feira da Música você explicará como organizar logisticamente uma tour, tanto nacional quanto internacional. Você abordará quais ítens especificamente?
Basicamente as áreas que sejam de interesse direto para a estruturação da tour em si, como: definição do roteiro, orçamentos, custos, transportes, como funciona o agendamento dos shows no Brasil e fora, agregamentos, a importância do registro, etc. Trata-se de um estudo de caso de como organizamos nossas tours e, como todo artista independente, tem problemas e desafios a enfrentar por falta de estrutura e patrocínio.
Como você começou a organizar suas turnês?
Organizei a primeira tour em 2008, pelo Brasil, com a banda Dilei, na qual eu fazia parte. Esta primeira tour abrangia nordeste e centro do Brasil. A primeira tour internacional foi com o duo 2 Mares, em que tocava também. Fizemos Bolivia, Brasil e Peru. Sempre organizei tours com grupos onde eu tocava, com exceção do grupo argentino Los Cocineros, em que organizei a tour Brasil em 2009.
Quais são as vantagens de realizar esse projeto de forma independente?
Vantagem como todas as questões que envolvem a gestão de carreira independente: ter 100% de controle estratégico e artístico sobre o sua obra.
Como é feita a articulação nas viagens (logística, uso de produção local, backline)?
Analisamos caso a caso a depender de questões geográficas e como está estruturado o mercado local. Porém, priorizamos trabalhar diretamente com produtores, afinal, é impossível organizar um evento do zero em meio a 50 shows. Precisaríamos de uma grande produtora para gerir todas as questões. Primeiro se define o roteiro, a partir de uma ideia mesmo, quase como um sonho. E a partir daí, entra o trabalho para viabilizar este roteiro. No caso do Finlandia, necessitamos de um backline simples, afinal somos um duo que não necessita de bateria. Essas e outras questões são pontos de análise na hora de negociar e organizar a tour. Quanto a estrutura do local que irá receber a banda? Negociamos sempre a logística básica e remuneração a depender de cada caso. Procuramos sempre utilizar o bom senso na questão de “o que é bom para ambos”. A questão do som é ponto primordial na negociação. Afinal é o centro de tudo. Um backline atendendo as necessidades é fundamental.
Quais são as principais diferenças entre uma turnê nacional e internacional?
Os mercados são muito diferentes. Uma tour nacional possui vários benefícios através das redes de coletivos independentes que existem e estão bem estruturadas em relação a outros países. Uma tour internacional requer um processo mais a longo prazo, através de bookings ou participação em festivais. Além disso entram questões como barreira de idioma, trâmites internacionais como vistos, recepção do público. Cada país tem sua cultura bem definida e é indispensável que estude bem o tipo de mercado que se encontra em cada um. Na Europa encontramos um público com sede por música Sul Americana. Na América Central encontramos uma boa estrutura de produtores para o tipo de música que fazemos no Finlandia. O que vale ressaltar é que nós do Finlandia acreditamos que uma grande estratégia para artistas que não tem apoio nem estrutura de grande porte é o investimento a longo prazo através de idas para conhecer de perto estes mercados. É impressionante como isso traz resultados inesperados!
Palavras-chave: DUO FINLANDIA, estruturando tours



