A nona edição da Feira da Música de Fortaleza colocou a capital cearense no centro das atenções da cena alternativa brasileira. E o Ceará revelou nomes com chances de êxito nacional
Por Luciano Almeida Filho (Esta matéria foi originalmente publicada nas edições impressa e online do jornal O Povo/CE
Quem passou pelas dependências e o entorno do Centro Dragão do Mar entre quarta-feira passada (18) e a madrugada de domingo (22), se deparou com um movimento fora do normal, para além da agitação já tradicional dos bares, boates e da programação do próprio centro cultural. Encontrou uma Fortaleza fervilhante, com shows nos mais diversos espaços e tribos das mais variadas circulando pra lá e pra cá, ao sabor dos sons, e na maior paz em nome da música em toda sua diversidade.
A nona edição da Feira da Música parece ter achado seu formato ideal, colocando a capital cearense no centro do foco da cena independente brasileira (Ou seria a capital do movimento Fora do Eixo?). Eram atrações vindas de norte a sul do Brasil, sem exagero – músicos gaúchos se encontraram com colegas do Amapá, do Mato Grosso do Sul e, é claro, cearenses, paulistas, pernambucanos, mineiros, paraibanos, potiguares, baianos etc e tal.
Mas vamos puxar a brasa para a nossa sardinha. Isto é, vamos falar dos destaques cearenses. Jonnata Doll e os Garotos Solventes provaram que o rock ainda pode ser subversivo, perigoso, selvagem e divertido… muito divertido. Sua apresentação, fechando a programação do Palco Rock no Sesc Senac Iracema, noite de sábado (21), foi antológica. Jonathan saiu de lá consagrado como o ‘Iggy Pop da era da pedra queimada’. Mais cedo, o trio Facada provou porque é uma das bandas mais fortes do grindcore brasileiro; a galera pogou como pode no espaço apertado entre a arquibancada e o palco de um palmo de altura.
No mesmo espaço, na sexta (20), O Sonso fez o lançamento de seu CD de estreia e mostrou que está prontinho, no ponto para o sucesso nacional. Sua mescla de rock com música popular brasileira de veia romântica é capaz de emplacar até em trilha sonora de novela, com letras inteligentes e melodias sedutoras. Mais ou menos no mesmo horário, no Palco Brasil Independente, Laya Lopes mais uma vez esbanjava seu charme à frente do Jardim das Horas. Sonso e Jardim são duas bandas cearenses já radicadas em São Paulo com grandes chances de êxito, seguindo os passos abertos por Catatau e seu Cidadão Instigado. Já no sábado, foi o hip hop cearense que mostrou sua força a partir do trabalho do DJ Doido com os MCs do Quilombo Favela, Uns e Outros e a participação especial da Comunidade da Rima.
Mas quem achava que só o rock, pop e rap locais tiveram vez, no Palco Instrumental, a big-band Assaré Band e o Quarteto de Trombones do Estado do Ceará fizeram apresentações de deixar todos de queixo caído. Quem ia passando pelo palco sob passarela, não conseguia sair até o fim das apresentações. Com repertórios afiados e domínio de seus instrumentos, as duas formações ainda esbanjaram carisma – coisa rara no meio da música instrumental. São apostas certas para o circuito de festivais de música instrumental e jazz.
O mestre Messias Holanda, que encerrou a segunda noite de shows da feira, botou o público para dançar e a Praça Verde se transformou num imenso forró ao ar livre. Secundado por uma banda afiada, Messias surpreendeu com energia, segurança e domínio do seu métier. E ainda decretou: “não tá mais trepando no pé de coco, agora ele está chupando manga”.
Bem… já dá pra perceber que se você gosta de música e/ou vive de música de alguma forma e não apareceu para conferir a Feira da Música perdeu grandes oportunidades. Seja de conferir shows incríveis ou uma mera visita os estandes, seja para fazer os melhores contatos possíveis para ampliar sua carreira para além das fronteiras cearenses.
É verdade e dou fé!
E-Mais
A noite de sábado (21) do Palco Instrumental reuniu grandes trabalhos que mudaram o perfil do normalmente comportado público do local. O trio paulista Dead Rocks mostrou estilo e energia com sua surf music. Na sequência, veio de Natal (RN) a Camarones Orquestra Guitarrística misturou surf music com carimbó e outras matizes da música instrumental de guitarra com intervenções eletrônicas a cargo de Anderson Foca. E para encerrar, os pernambucanos do Ska Maria Pastora misturaram o ritmo ancestral jamaicano com o frevo de rua e não deixaram ninguém parado.
Aliás, o frevo pernambucano já tinha dado sua cara no mesmo palco sob passarela, no dia anterior (20), seja na versão experimental de Antúlio Madureira seja no bastião da tradição que é a Orquestra Popular do Recife, do maestro Formiga. Tinha gente arriscando passos do frevo até mesmo no alto da passarela
